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Fado

  • 18 de jun. de 2021
  • 3 min de leitura

Atualizado: 20 de jun. de 2021


Espetáculo "Fado". Créditos: Marlon de Paula

“Jamais foi comprovado que nessa terra existem fantasmas, se eles falam ninguém escuta. E eu perdida nesse labirinto. Os muros aqui são muito altos, concretos, não existe saída, são corredores infinitos. Só vejo os meus cabelos brancos e a pele enrugada... Eu não tenho mais tempo... Não tenho mais tempo…” (fala da professora).


FADO fez com que nós atores do espetáculo, mergulhássemos na solidão nossa de cada dia. Os aspectos dos personagens se misturaram com as nossas histórias. Falamos do desespero do homem de ter que estar no mundo e de ter que lidar consigo mesmo, de ter que acordar todos os dias e se deparar com a sua própria miséria.


No palco, a melancolia da música portuguesa, que atravessa o processo de criação. Também a roda morta de Sérgio Sampaio que nos remeteu a roda do destino que nos arrasta e nos consome.


Na peça oito personagens se encontravam, oito sinas, que na busca pela existência, se esbarraram e eram envolvidos pelas regras, opressões do mundo. Trouxemos o cotidiano, a merda que é não ser livre, de estar preso a convenções e às imposições criadas antes do nascimento. Tratamos da tristeza de sabermos que não há liberdade plena, não há sociedade justa, não há saída e, portanto vivemos de ilusões e fugas.

Ao longo da feitura do Fado, entre leituras, pesquisas e treinamentos, muito me perpassou a ideia do risco na cena. A necessidade mais uma vez da “presença” da atriz em cena, sem medo de atirar-se ao abismo, arriscar-se. O despojamento da pessoa indo ao encontro da personagem. O espetáculo, com certeza, me colocou num espaço de criação onde foi preciso trazer minha angústia, minha solidão, minha fragilidade, foi preciso me encarar de frente, e portanto tive que correr o risco.


A personagem era uma professora que se divide entre as tarefas do cotidiano e o prazer. Preocupada com o tempo reverberando em seu corpo, envelhecendo em busca de um cais. Se torna rude, deprimente e só!


Que honra ter vivido essa mulher que me fez ser tanto. Que me fez expurgar o medo e a solidão e que me ensinou tanto enquanto atriz. Esse “fantasma” carrego comigo.

No final do processo do espetáculo, dias antes da estreia escrevi dois poemas que deixo aqui nesse relato:


“Na falta dos encontros e dos encantos

Nenhum meio, nenhuma visita...

Nos meus vazios Guimarães, assim como os seus,

O sertão é grande, é longo.

É muito difícil encarar a mim mesma

Ninguém batendo à porta Ninguém falando no ouvido

Ninguém me chamando

E eu gritando Só...

Dor física de me experimentar sozinha.”


“Às vezes ficou aqui dentro dessa caixa branca. Aqui dentro só eu encontrando comigo mesma.

Não há música. Só a luz branca das paredes em companhia.

Lá fora, a chuva, incessante, me espera.

Não ousei olhar para a janela.

Seria muito saber que em volta da caixa branca escorre água menos abundante, quanto a que escorre aqui dentro.


É vermelho vivo!

Ao ver as paredes é como se a casa rodasse, flutuasse.

Ás vezes me deparo com a lucidez? A consciência que sairei em breve da caixinha. Entre mim e a porta, poucos passos, mas eu me recuso a levantar.

Não tenho mais sede. É inútil. A vida. Talvez.

A janela, a lucidez, os passos, a chuva, as gotas, o vermelho, o branco se fundiram.

Bateram na porta. Bateram...Bateram...

Se eu saí da caixa eu não sei dizer.

Mas de fora só aumentava o tamanho da caixa.”


Fado foi criado pelos atores, Ana Maria Malta, Elis Ferreira, Fernanda Nascimento, Flávio Reis, Gheysla Nascimento, Marcos Fonseca, Mirian Rios e Talles Ramon e dirigido por Juliano Pereira. O espetáculo foi objeto de pesquisa de Juliano Pereira dentro do Programa de Pós Graduação em Educação da UFSJ.



*Parte das mídias exibidas neste blog pertence ao acervo do Teatro da Pedra.

 
 
 

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© 2021 por Alícia Souza

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