Sobre a Odisseia
- 17 de jun. de 2021
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O processo de feitura de um espetáculo pode percorrer dias, meses e até anos. Ao longo do tempo, a partir das necessidades da cena, dos estímulos, experimentações e de problemas práticos percebidos na criação, o teatro vai se revelando de forma substancial.
Do ponto de vista polifônico, um processo criativo, proporciona ao coletivo, experiências mais aprofundadas relacionadas aos temas do espetáculo e todas as suas potências.
Assim aconteceu com o espetáculo “Odisseia” do Teatro da Pedra que durou um ano e meio de construção.
Esse espetáculo foi feito de forma coletiva. Estiveram em cena junto comigo, os atores, Ana Maria Malta, Adailson Natanael, Diego Matos, Elis Ferreira, Flávio Reis, Gheysla Nascimento, Mariana Barbosa, Nivaldo Todaro, Paloma Arantes, Priscila Matilde, Caio Priori (músico) e na direção Juliano Pereira.
Logo no início do processo, em 2017, fomos ao mergulho da grande obra clássica de Homero, que nos levou a uma Odisseia de experimentações, pesquisa e criação.
Uma pesquisa que retomou a Grécia antiga, a guerra de Troia e os dias atuais. Olhamos para os mitos e estudamos as tragédias. Mergulhamos no heróico, no divino e na humanidade de Odisseu. Embrenhamo-nos em seus desejos, suas ganâncias, seus medos, suas angústias, e nos deparamos com a astúcia e a pequenez do herói da história.
Essa experiência criativa e coletiva do Teatro da Pedra me proporcionou uma possibilidade de olhar para o meu trabalho de atriz de maneira ampla. Desde as questões psicológicas e sociais que permearam a peça até as questões humanas vividas e percebidas nas propostas de temas do espetáculo.
Várias questões vieram à tona, o corpo forte e flexível em cena, a voz como elemento importante para a dramaturgia e a importância da presença, não somente como “estado” mas como intensidade fluida e inteira do ator em cena.
Para essa jornada, foi preciso treinar. Colaboraram nesses treinamentos, Vinícius Jovino no treinamento de Kung Fu, Maria Cordélia na preparação vocal e Ernani Maletta na direção musical.

Estar em cena com a Odisseia, que estreou em 2018, era poder partilhar com a platéia, que por muitas vezes lotou o Teatro da Pedra, esse processo vivo do espetáculo. Era sempre novo, sempre potente e sempre instigante descobrir a cada apresentação o fazer teatral acontecendo.
Foi de fato importante uma imersão pessoal e coletiva na criação, não deu pra sair ilesa nem da feitura, nem das apresentações. Era intenso treinar e buscar a cada novo estímulo o espaço da cena que se entrelaçava a todos os agentes do espetáculo, figurino, cenário, objetos, palco, etc.
A Odisseia me arrebatou no feminino e no masculino, no grande e no pequeno, no inteiro e aos pedaços.
Portanto, percebo esse processo como um grande divisor de águas no que se refere a minha trajetória artística. Impossível sair ilesa dessa travessia.
Assim como Odisseu que sai para guerra de um jeito e retorna à Ítaca depois de dez anos, outro homem.
Há muito mais o que se dizer desse processo rico, acordado, fértil e transcendente. Mas por hora, tomo a liberdade de contar outras experiências por aqui, não só para preservar o caráter vasto e intuitivo da criação, como pelo cuidado, nunca desnecessário, de não objetivar excessivamente um fim pretendido.
Evoé!
*Parte das mídias exibidas neste blog pertence ao acervo do Teatro da Pedra.



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